No início de 1961, o Presidente Jânio Quadros recebeu uma carta que lhe sugeria a criação de uma instituição “para dar início e organizar um plano mínimo de trabalho no campo astronáutico”. Na época, a Corrida Espacial, reflexo da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a então União Soviética, polarizava o mundo. Os autores da carta, Thomaz Pedro Bunn e Luís Gonzaga Bevilacqua, diretores da antiga Sociedade Interplanetária Brasileira (SIB), achavam que o Brasil deveria se preparar para também participar da corrida espacial. O documento por eles gerado foi o pontapé para o decreto que criou a CNAE, protótipo de uma agência espacial civil para o Brasil, em agosto daquele ano. Mas, quem eram os dois diretores que escreveram a carta ao Presidente e o que era a Sociedade Interplanetária Brasileira (na época, o termo “interplanetário” se referia às possibilidades de voos espaciais para a Lua e para outros planetas). Thomaz Pedro Bunn, que presidia a SIB quando a carta foi enviada era, como se diria hoje, um cidadão do mundo. Nascido na Hungria, ainda estudante, foi classificado em segundo lugar em um Concurso Nacional de Física, entre 900 candidatos. Formado engenheiro civil pela Universidade Politécnica de Budapeste, exerceu sua profissão em vários outros países (Austrália, Suíça, França, Alemanha). Era sócio da Sociedade Húngara de Ciências Naturais e da Societé Astronomique de France. Depois da II Guerra Mundial, mudou-se para o Brasil e se naturalizou brasileiro, mas anos depois foi morar na região de Palo Alto, na Califórnia, próximo à Universidade de Stanford. O outro missivista, Luís Gonzaga Bevilacqua (1912-1992) foi outro membro brilhante da SIB (e depois também seu presidente). Foi um destacado precursor da astronomia e astronáutica dentro e fora do País. Ele recepcionou e acompanhou a comissão de cientistas dos EUA que veio ao Brasil em 1941, chefiada por Arthur Compton, e que incluía nomes como Enrico Fermi e Hans Bethe (todos ganhadores de prêmios Nobel). Bevilacqua publicou diversos artigos científicos, participou de inúmeros eventos internacionais e fez parte de várias associações científicas, como American Rocket Society, Societè Astronomique de France, Agrupacion Astronautica de Espanha, L’Associazione italiana di Aeronautica e Astronautica, Associacion Interplanetaria Argentina, British Interplanetary Society etc. A SIB, foi fundada em 1953, em São Paulo, quatro anos antes do lançamento do primeiro satélite articial da Terra, o Sputnik-1. Seu objetivo era promover o interesse e a discussão sobre exploração interplanetária. A sede ficava na Avenida Ipiranga, em frente ao famoso Colégio Caetano de Campos (hoje Secretaria da Educação), na Praça da República, centro histórico da capital paulista. A SIB também tinha uma sede campestre em Carapicuíba, então uma vila rural. De lá, os mais sonhadores sócios (certamente leitores do clássico de ficção cientifica de Jules Verne, “Da Terra à Lua“, publicado em 1869) acreditavam que um dia partiriam foguetes e naves para a Lua e além. Como pioneira do tema no Brasil, certamente a Sociedade Interplanetária Brasileira imaginava um futuro de protagonismo para País nas conquistas espaciais que ainda estavam por vir.
A Antiga Sociedade Interplanetária Brasileira

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